terça-feira, 12 de maio de 2020

Os Tesouros da Missa Tridentina

É comum ouvirmos em conversas com mais velhos, ou até mesmo entre padres, que, antigamente, a Santa Missa era celebrada em latim, com o sacerdote de costas para o povo. Isso não é errado, mas também não é toda a história. A verdade é muito mais rica e instigante do que isso. Esse antigo ritual tem nome: é a Missa Tridentina, um dos tesouros da Tradição da Igreja católica. 
A primeira Missa celebrada no Brasil foi em Rito Tridentino.

A Missa de sempre 
Hoje em dia, quem vai a uma Missa geralmente espera encontrar o padre falando em português – ou na língua local –, voltado para os fiéis, e dando a Sagrada Eucaristia na mão dos presentes enquanto estão em pé. Mas nem sempre foi assim. Esses hábitos do ritual só passaram a existir em 1969, quando o papa Paulo VI assinou o documento Novus Ordo Missæ, inaugurando o estilo de missa com que a maioria das pessoas está acostumada atualmente. Então, como faziam o milhões de católicos no mundo todo antes de 1969? Em toda a Igreja no Ocidente celebrava-se a Missa Tridentina, que leva esse nome por ter sido formalizada logo após o Concílio de Trento (1545-1563). O papa São Pio V, em 1570, assinou o documento Quo Primum, universalizando cada gesto e oração que deveria ser celebrada em todo o mundo. Essa, porém, não é a origem do ritual. O Sacrifício do altar remonta à noite da Santa Ceia, a primeira Missa por excelência, em que Jesus Cristo, por um mistério divino, transformou o pão em seu Corpo e o vinho em seu Sangue (Mt 26,26-28), instituindo o Sacramento da Eucaristia, que é o centro da Igreja neste mundo. 

Origem e evolução 
Pelo que o Novo Testamento nos indica, as primeiras Missas celebradas pelos próprios Apóstolos não tinham muito mais do que um sermão e a consagração eucarística (At 20,7). Provavelmente cantava-se também “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef 5,19), o que pode ser a origem desse costume litúrgico praticado até hoje. Não demorou, entretanto, para as Missas realizadas no Ocidente crescerem em simbolismo e sofisticação. Após ser realizado o Concílio de Niceia, em 325, os dogmas católicos ficaram muito melhor definidos. Mas já nessa época a Igreja se via obrigada a combater membros que buscavam perverter a Revelação divina e a Tradição transmitidas desde os Apóstolos. Um dos exemplos mais notórios foi Ário (256-336), bispo de Alexandria, criador da heresia chamada arianismo, que negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O combate a essas e outras heresias não poderia ocorrer em lugar melhor do que nas próprias Missas, onde toda a cristandade se reúne. Com o propósito de reafirmas as verdade de Fé, nas Missas de todas as Igrejas começaram a rezar o Credo de Niceia e, ao final, o início do Evangelho de São João, ambos reforçando a essência divina de Jesus. Ao longo dos séculos, todas as orações e simbolismos adicionados ao ritual tiveram o propósito de reforçar as doutrinas católicas, geralmente em atendimento às demandas da época. O desenvolvimento da Missa Tridentina – que ainda não tinha esse nome – ocorria de forma relativamente espontânea e uniforme ao longo de toda a Idade Média, especialmente graças à formação do Império de Carlos Magno, no ano 800, que, em acordo com os mosteiros de todo o território, passou- -se a celebrar uma liturgia uniforme. 
Papa São Pio V

São Pio V 
Quando o papa São Pio V publicou a encíclica Quo Primum, o ritual da Missa foi ser normatizado e uniformizado em todo o mundo, eliminando as poucas variações regionais que restavam de uma região para outra. O documento acompanha uma descrição detalhada de cada gesto e oração que devem ser praticados desde então. O mais importante legado dessa encíclica entretanto, é sua validade perpétua. Como se pode ler no artigo 14: “Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição. Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.”

Quem sou eu

Estudante de Comunicação Social - Jornalismo da PUC-Rio. Procuro seguir uma carreira intelectual, mas não acadêmica. Atualmente sou tradutor e revisor de livros. Neste blog publicarei novidades sobre o mundo da Santa Igreja Católica, em especial sobre os membros fiéis à Tradição. Espero que gostem!