É comum ouvirmos em
conversas com mais velhos, ou
até mesmo entre padres, que,
antigamente, a Santa Missa era
celebrada em latim, com o sacerdote de costas para o povo.
Isso não é errado, mas também
não é toda a história. A verdade é muito mais rica e instigante
do que isso. Esse antigo ritual
tem nome: é a Missa Tridentina,
um dos tesouros da Tradição da
Igreja católica.
![]() |
| A primeira Missa celebrada no Brasil foi em Rito Tridentino. |
A Missa de sempre
Hoje em dia, quem vai a
uma Missa geralmente espera
encontrar o padre falando em
português – ou na língua local
–, voltado para os fiéis, e dando
a Sagrada Eucaristia na mão dos
presentes enquanto estão em
pé. Mas nem sempre foi assim.
Esses hábitos do ritual só passaram a existir em 1969, quando o
papa Paulo VI assinou o documento Novus Ordo Missæ, inaugurando o estilo de missa com
que a maioria das pessoas está
acostumada atualmente. Então,
como faziam o milhões de católicos no mundo todo antes de
1969?
Em toda a Igreja no Ocidente celebrava-se a Missa Tridentina, que leva esse nome por
ter sido formalizada logo após o
Concílio de Trento (1545-1563).
O papa São Pio V, em 1570,
assinou o documento Quo Primum, universalizando cada gesto e oração que deveria ser celebrada em todo o mundo.
Essa, porém, não é a origem
do ritual. O Sacrifício do altar
remonta à noite da Santa Ceia,
a primeira Missa por excelência, em que Jesus Cristo, por um
mistério divino, transformou o
pão em seu Corpo e o vinho em
seu Sangue (Mt 26,26-28), instituindo o Sacramento da Eucaristia, que é o centro da Igreja
neste mundo.
Origem e evolução
Pelo que o Novo Testamento
nos indica, as primeiras Missas
celebradas pelos próprios Apóstolos não tinham muito mais do
que um sermão e a consagração
eucarística (At 20,7). Provavelmente cantava-se também “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef 5,19), o que pode ser a
origem desse costume litúrgico
praticado até hoje.
Não demorou, entretanto,
para as Missas realizadas no
Ocidente crescerem em simbolismo e sofisticação. Após ser
realizado o Concílio de Niceia,
em 325, os dogmas católicos ficaram muito melhor definidos.
Mas já nessa época a Igreja se
via obrigada a combater membros que buscavam perverter a
Revelação divina e a Tradição
transmitidas desde os Apóstolos.
Um dos exemplos mais notórios foi Ário (256-336), bispo de Alexandria, criador da heresia chamada arianismo, que
negava a divindade de Nosso
Senhor Jesus Cristo.
O combate a essas e outras
heresias não poderia ocorrer
em lugar melhor do que nas
próprias Missas, onde toda a
cristandade se reúne.
Com o propósito de reafirmas as verdade de Fé, nas Missas de todas as Igrejas começaram a rezar o Credo de Niceia e,
ao final, o início do Evangelho
de São João, ambos reforçando
a essência divina de Jesus.
Ao longo dos séculos, todas as orações e simbolismos
adicionados ao ritual tiveram
o propósito de reforçar as doutrinas católicas, geralmente em
atendimento às demandas da
época.
O desenvolvimento da Missa Tridentina – que ainda não
tinha esse nome – ocorria de
forma relativamente espontânea
e uniforme ao longo de toda a
Idade Média, especialmente
graças à formação do Império
de Carlos Magno, no ano 800,
que, em acordo com os mosteiros de todo o território, passou-
-se a celebrar uma liturgia uniforme.
![]() |
| Papa São Pio V |
São Pio V
Quando o papa São Pio V
publicou a encíclica Quo Primum, o ritual da Missa foi ser
normatizado e uniformizado
em todo o mundo, eliminando
as poucas variações regionais
que restavam de uma região
para outra. O documento acompanha uma descrição detalhada
de cada gesto e oração que devem ser praticados desde então.
O mais importante legado dessa encíclica entretanto, é
sua validade perpétua. Como se
pode ler no artigo 14:
“Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente
disposição de nossa permissão,
estatuto, ordenação, mandato,
preceito, concessão, indulto,
declaração, vontade, decreto e
proibição.
Se alguém, contudo, tiver a
audácia de atentar contra estas
disposições, saiba que incorrerá
na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.”

